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09 setembro 2016

OS(AS) APOSTOS(AS) DA REITORIA

Não sou dado à flexão de gênero na linguagem e, quando tento, erro muito. O que pretendo argumentar, porém, me obriga a titular essa reflexão de modo a insinuar a dita flexão – mas só que não.

Aos fatos.

Entre 2010 e 2012, realizamos a campanha “Para a UECE não parar, efetivo já!”. Foi uma campanha de longo alcance baseada em três estratégias. A primeira foi dar visibilidade para a crônica falta de professores nas estaduais do Ceará, tendo a UECE como foco. A segunda esteou-se em mobilizações, com visita a todos os campi, e realização de atos públicos – quem não se lembra dos oito atos e das três audiências públicas em apenas um ano? A terceira foi uma denúncia que fizemos no ministério público do trabalho sobre a precarização do trabalho dos substitutos e a ilegalidade das contratações abusivas.

Qual foi o resultado? El Cid enviou mensagem à Assembleia Legislativa que virou Lei Complementar número 105 – um presente natalino para as estaduais publicado no Diário Oficial do Estado em 26/12/2012 – legalizando a ilegalidade ao criar a figura do professor temporário. Por outro lado, teve de receber o movimento e negociar, pelo menos, o concurso para cobrir vagas de professores que tinham morrido ou sido exonerados a partir de janeiro de 2007. Na Uece, esta conta ficou em 73 ou 74 vagas, se não me engano.

Em face das chantagens de El Cid, alguém chegou a sugerir uma nova campanha com o chamado “professor, se é de se aposentar, exonere-se ou morra!”.

A reitoria acompanhou tudo de fora e também de dentro – pois como El Cid era enjoado com as magnificências, e não dava nem thuiu, elas aproveitavam as audiências conquistadas nas manifestações e iam lá dizer das carências das estaduais. Jogaram um papel importante, secundário, mas importante, porque tinham informações das quais não dispúnhamos.

Àquela época, quando o governador irmão do valentão das tapiocas autorizou o certame, um jovem do movimento estudantil (ME) procurou-nos e disse com toda boa fé: “a campanha não faz mais sentido porque a reitoria garantiu que há um plano de concursos já elaborado para os próximos anos”.

Os que dirigíamos o sindicato alertamos o jovem militante e todo o ME para os riscos de crerem em discursos virgulados demais, com apostos e apostas demais. Lembro de ter invocado a sabedoria de Garrincha e perguntado ao jovem: “será que a reitoria combinou com os adversários”? Não. Ela não tinha combinado. Era apenas uma aposta. Mas parte substantiva do ME abandonou a campanha como, de resto, quase toda luta interna, acreditando que algumas reivindicações eram já favas contadas.

Depois que deixei a direção do sindicato, fiquei com um pouquinho mais de tempo e passei a me deter mais no discurso da reitoria. Empenhei esforços para ler – e tentar entender! – as notas publicadas no site e via lista de e-mails, por exemplo. Aliás, essa é uma boa prática dos movimentos sindical e social – a de publicar notas.

Algumas eram diretas e certeiras, outras eram uma embriaguez só. Quanto mais difíceis eram as causas – a do concurso, por exemplo – mais as frases que delas tratavam eram pendulares. Sabem aquelas construções frasais que dizem tanto e não afirmam nada? Confesso que algumas vezes cheguei a me interrogar “esses caras fumaram o quê?!”.

O tempo malvado foi passando e frustrando, uma a uma, as previsões e apostas reitorais. Até explodir a greve de 2013, dos três segmentos das três universidades. Quem não se lembra do clima da assembleia que deflagrou o movimento na Uece? Um meio dia de Teresina nos B-R-O-BROS!… Estudantes, mestres, servidores engalfinhados na defesa de seus pontos de vista… Havia gente pendurada nas árvores ali do bloco I e uma patota de meia idade saçaricava em efusivos aplausos aos oradores. Teve até um senhor que ia passando e gritou: “eita, o cemitério ganhou vida!”.

Pois bem. Deem uma lida nas notas da reitoria, à época, e depois me digam se não tinham apostos demais, vírgulas demais, insinuações demais… apostas demais.

Recentemente, numa audiência, a fala reitoral foi boa. Um sindicalista tinha dito nas barbas (ops, o sindicalista é que tem barba, o secretário é imberbe) de um secretário meio abusado que existe um acordo celebrado com o governador que completara vinte meses de idade e não tinha sido cumprido em nenhum aspecto fundamental – falou citando como exemplo os concursos para professores e servidores, aqueles mesmos que a liderança estudantil tinha sido convencida de que sairiam em 2011 e 2012, lembram?

A fala reitoral, quando soou, foi boa: confirmou. De fato, disse, o governador comprometera-se a realizar um concurso emergencial para 120 vagas em 2015 e mais dois, em 2016 e 2017. Eu já estava quase exclamando interiormente “muito bem companheiro, vá pra cima deles!”, quando veio o diabo de um aposto que dizia do acordo ter sido celebrado antes que o governo conhecesse a dimensão real da crise que se abatera sobre o País. “Ah apostozinho desgraçado!” foi como pensei.

Aí, como de hábito, veio um longo e irritadiço discurso que tentou subverter vários elementos da ordem do real, com um malabarismo linguístico que nem o cão entende. Ainda por cima resolveu soltar a inteligente ideia segundo a qual se o governo majorar a gratificação de efetiva regência em 100%, ela sai de 1% para 2% do Vencimento Base – ou seja, teria um efeito midiático impressionante para o governo e um impacto financeiro quase nulo.

Ora, meus senhores e minhas senhoras, todo mundo ali sabia que o sindicato – em fina sintonia com as decisões das assembleias docentes – está autorizado a discutir a recuperação da inflação acumulada entre janeiro e dezembro de 2015 majorando uma gratificação; e que tal majoração poderia ocorrer na dita gratificação. Para recuperar a inflação de 10,67% seria necessário aumentar em muito o percentual da referida gratificação em relação ao VB e não duplicá-la tomando por referência ela mesma. Dam! Dam! Dam!

Em nota publicada no site da Universidade (8/9/16), os apostos diminuíram, é bem verdade, mas, meu Deus, como a aposta aumentou!

Para que virar estadista assim, de repente, assumindo para a reitoria a chantagem descarada do governo de Camilo Santana, garantindo – com toda a honra e credibilidade que a palavra empenhada por este governo lhe faculta! – que “a declaração de fim de greve resultará em várias iniciativas complexas”?

Deixemos, porém, de lado esse atravessamento, e levantemos questões mais diretas: quais são as iniciativas e qual o grau de complexidade? Pasmem: trata-se da convocação dos professores e alunos para a reposição das aulas, da contratação dos professores substitutos aprovados em seleção recente e da posse dos 84 professores aprovados no concurso de 2015.

Estou aqui diante do mesmo dilema de Ariano Suassuna ao ler num jornal que Chimbinha era um músico genial e ficar procurando – e não encontrou! – um qualificativo para Beethoven. Ora, se essas ações administrativas ordinárias puderem ser chamadas de complexas como é que vamos adjetivar as pesquisas na área da Física Nuclear, as ardilosas operações matemáticas para criar derivativos sobre debêntures e outros títulos engordando artificialmente o capital financeiro e as investidas de pesquisadores da Antropologia para entender o modo de vida de povos originários sem ter domínio da língua nativa?

No caso do discurso reitoral, complexas são as palavras; simples são os fatos.

A nota repercutiu na imprensa e um jornalista jura de pés juntos que colheu da reitoria da UECE uma declaração que, além de afirmar que o reajuste salarial é impossível nesse momento, diz também ser ilegal nomear e empossar os 84 professores concursados estando a instituição em greve. Espero que o magnífico leve sua convicção às últimas consequências e processe o mesmo estado e o mesmo governador por ter nomeado e dado posse aos colegas professores da UVA em plena greve, ainda em curso – professores que, reconhecendo-se “filhos da luta!”, até já se afiliaram ao sindicato e já contribuem com o movimento paredista.

Não sendo da área, arrisco uma conclusão no campo da análise de discurso.

Aquela embriaguez dalgumas notas, o caráter pendular das ideias, o monte de apostos e de vírgulas que os acompanham sempre estiveram a serviço de reticências… É isto mesmo. A reitoria foi reticente durante todo o tempo em face dos problemas cruciais da nossa universidade e agora assumiu sua aposta máxima: quer ser o próprio governo! Concretiza, assim, o que disse Marilena Chauí sobre a cultura política brasileira: o cara se elege para representar o cidadão perante o Estado, mas logo que assume passa a representar o Estado perante o cidadão.

Em seus discursos, falas, notas e omissões a reitoria tem se pronunciado como governo, assumindo a razão de Estado perante os cidadãos ueceanos.

Resta saber se atentou para a sábia pergunta de Mané Garrincha: combinou com os russos?

Epitácio Macário
Professor de Economia Política da Uece
Diretor do Andes-SN

Epitácio Macário Moura
Epitácio Macário Moura
Doutor em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará – UFC.

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