A SINDUECE, Seção sindical do ANDES-SN, diante dos graves acontecimentos envolvendo a abertura de processos administrativos contra estudantes do Centro de Humanidades (CH) relacionados à ocupação de uma sala, vem a público manifestar sua posição e reafirmar seu compromisso histórico com a defesa intransigente da universidade pública, da liberdade de expressão, do direito à organização coletiva e da democracia, o que se estende para toda sua comunidade acadêmica.
Manifestamos nossa solidariedade aos estudantes que vêm sendo alvo de processos administrativos. É inaceitável que tais instrumentos sejam utilizados para intimidar, punir ou criminalizar quem se organiza e luta por seus direitos. A ocupação da sala pelos estudantes foi uma expressão legítima da organização e da luta estudantil em defesa de um espaço historicamente construído e utilizado por eles. Em decorrência dos processos administrativos, estudantes estiveram na iminência de desligamentos de bolsas e quase foram impedidos de realizar cadastro no CadFecop, também tiveram acesso restrito ao RU e suas colações de grau em 2026.2 estão sob ameaça. Tal procedimento é inconcebível no âmbito de uma universidade pública.
Consideramos positivo que a nota da administração superior, divulgada nesta quinta-feira (17/09), assinala que “o direito à manifestação constitui dimensão essencial da vida universitária”, e “reconhece a legitimidade da organização e da mobilização estudantil para a defesa de seus interesses, a apresentação de reivindicações, a manifestação de opiniões e a discussão sobre insatisfações e propostas”. Mas é necessário que a Reitoria expresse, na prática, esse entendimento. Outro aspecto importante da nota é que admite que os estudantes não têm qualquer associação com o inquérito que prendeu e indiciou pessoas – nenhuma delas vinculada à UECE – que praticavam atos criminosos nas imediações do Benfica, inclusive no interior do campus de Fátima.
Os processos administrativos movidos no interior da universidade, bem como o inquérito (arquivado por ausência de provas) movido pelo Ministério Público e pela Polícia Civil contra os estudantes, dizem respeito exclusivamente a possíveis depredações de patrimônio e pichações nas paredes do campus de Fátima. Entretanto, vigora em espaços da universidade uma campanha difamatória – de forma velada – que busca associar indevidamente estes estudantes a práticas criminosas. Repudiamos esse tipo de ilação. Trata-se de uma postura irresponsável e extremamente perigosa, pois reforça um conjunto de estereótipos e narrativas que pairam sobre as universidades públicas. Vivenciamos uma conjuntura extremamente difícil; estamos sob o risco real de vitória da extrema-direita no país e no estado. É inadmissível que pessoas da própria comunidade acadêmica abram caminho para perseguições e repressões no interior da universidade.
É um precedente terrível que pode estar se abrindo na nossa universidade, e nossa omissão poderá nos cobrar um preço muito alto mais adiante. Todos nós já fomos estudantes, e boa parte participou do movimento estudantil. Sabemos que uma universidade com as paredes limpas é uma universidade silenciada e, como bem disse Drummond: “As leis não bastam. Os lírios não nascem das leis. Meu nome é tumulto e escreve-se na pedra.”
Não estamos defendendo esse ou aquele estudante em particular; estamos defendendo um princípio: lutar não é crime!
Ante o exposto, apelamos à Reitoria para a imediata retirada do processo administrativo contra os estudantes e propomos a instauração de uma comissão de mediação entre as partes envolvidas. E reafirmamos a disposição da SINDUECE de contribuir para a conciliação desse conflito.
Sobre a atuação do sindicato e as críticas recebidas
Colegas docentes manifestaram descontentamento com a posição da SINDUECE por não ter considerado a opinião de todos/as os/as docentes ao se posicionar em solidariedade aos estudantes. Salientamos que nossas posições estão amparadas pelo nosso programa político apresentado na eleição de 2024 para a diretoria da entidade e referendadas pelas posições definidas pelos congressos do nosso sindicato nacional. E a condução política da SINDUECE é aberta à plena participação e ao direito à divergência de sua base de filiados/as; inclusive, vale ressaltar, convocamos duas assembleias para debater, de forma coletiva e democrática, a questão do CH.
Quando diretoras e diretores de centros e faculdades assinaram uma carta em solidariedade à diretora do CH e ao reitor – e, por consequência, favoráveis às medidas punitivas contra os estudantes –, não submeteram essa posição aos conselheiros/as de centros e faculdades e aos demais membros da comunidade acadêmica. Cumpre lembrar que determinadas funções administrativas – coordenador/a, diretor/a e até mesmo reitor/a – são eleitas por todos os segmentos da instituição, inclusive pelos estudantes. Podemos ter divergências quanto ao conteúdo dessa carta, mas em nenhum momento questionamos a legitimidade dos/as gestores/as para expressarem sua posição.
Não endossamos todas as posturas e os métodos adotados pelos estudantes daquele movimento no CH. Cabe recordar que nos solidarizamos publicamente com a professora Kadma por ocasião da ocupação de sua sala. Reiteramos nossa solidariedade à professora diante dos ataques que sofreu, ao passo que reafirmamos nosso desacordo com qualquer ofensa pessoal dirigida a gestores, docentes, estudantes e a qualquer membro da nossa comunidade acadêmica. O sindicato se posicionou desde o princípio por uma solução negociada do impasse, e mantém esta posição.
Vale frisar o arquivamento do processo contra os estudantes por indicação do Ministério Público e acatado pela Polícia Civil, que considerou infundadas as acusações relativas à individualização dos crimes, confirmando o desacerto da abordagem adotada pela Administração Superior. Por isso mesmo, consideramos precipitada a decisão de concluir o processo com um ato punitivo em relação aos estudantes. Insistimos na retomada do processo de diálogo.
Conclamamos os colegas docentes que divergem da posição da SINDUECE a participar ativamente dos fóruns internos da entidade, propondo suas posições e disputando a condução deste sindicato, inclusive colocando-se à disposição para compor a sua diretoria. Estamos, neste momento, na direção do sindicato, mas não somos, nem queremos (e nem podemos) ser, os ocupantes permanentes dessa função.
Defendemos obstinadamente os direitos da nossa categoria, da universidade pública e da classe trabalhadora. Fomos um dos poucos sindicatos a protagonizar uma greve no último período — que resultou em conquistas importantes, como a inclusão da classe Titular na carreira. Ademais, a SINDUECE está permanentemente nas lutas em defesa dos interesses das/os docentes, do serviço público, dos direitos dos/as servidores/as e da classe trabalhadora. Nossa entidade, inclusive, está na coordenação geral do Fórum Unificado das Entidades e Associações do Serviço Público do Estado do Ceará (FUASPEC). Tal fato expressa o reconhecimento, por parte do conjunto do movimento sindical do Ceará, da atuação combativa da nossa entidade. Isso não é estar a serviço de interesses alheios à categoria. Isso é lutar pelos direitos de todas/os/es.
O momento pede unidade de todos os segmentos da universidade pública em defesa da instituição, da educação e da democracia, impedindo o avanço da extrema-direita nos postos de comando do nosso país e do nosso estado.
A história nos exige lutar!
SINDUECE — Seção Sindical do ANDES-SN na UECE
Fortaleza, 18 de setembro de 2026
